sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Em algum lugar do passado

A: buenas, cá estamos!
B: ei, enfim... demorou!
A: é que eu não sei usar direito essas modernidades.
B: mas não tem segredos aqui professora... de balé... rs
A: balé só para os íntimos :-). E você, não tinha a tal festa?
B: ela cancelou.
A: alguma idéia de onde dançar balé? tem gente indo pro Talebe, e outros pra ouvir samba da mariela... e também tem o rio todo...
B: onde é o samba da Manoela, esse não conheço ainda.
A: o da Mariela é coisa de Janete, tudo pode mudar o tempo todo....
B: então, podemos dançar sobre as montanhas do Rio, tem muitas.
A: eu não escalo...
B: ah, eu ganhei uma escalada da minha amiga portuguesa, ainda tenho q agendar.
A: agendar a amiga?ui!
B: não, a escalada, né... engraçadinha
A: buenas, a que horas a senhorita termina os afazeres hoje?
B: acho q até às 18h, tou liberada.
A: tenho análise as cinco e depois, free woman.
B: sim, 17h30, com certeza.
A: odeio com certeza.
B: rsrsr... bom
B: bem, eu gostaria de conferir esse samba da manuela, se for rolar
B: ou então, Talebe.
B: ou um plano c.
B: e se víssêmos um filme antes?
A: tá compulsiva, hein?rsrs
B: preciso ver, acho que pode ser útil para me dar idéias para o meu projeto...
A: o tito tb vai... o de cabelo amarrado, no Talebe.
B: nossa, ele é um amigo seu que gostei!e Pablo também gostou.
A: todo mundo gosta do Tito, impossível não gostar... feito tostines.
A: lembro do Pablo, tava meio nervoso no lançamento do foguete... rsrsrrs.
B: sim, nervoso com suas amigas lindas.
A: ai, ui, ai,... diz pra ele aprender a se comportar.. eu também fico nervosa com meninas lindas... rsrsrrs



domingo, 28 de setembro de 2008

Você me dá febre


A mão dela toca a minha testa suada. Embora a febre nos distancie em pensamentos, o corpo físico rememoria seu toque arrepiando meus pêlos. Com o olhar esgazeado arquiteto recompor-lhe o rosto embaçado pelas altas temperaturas. Eu a chamo pelo apelido de infância. A sua silhueta imita uma menina. Aos dez anos brincávamos de sombras há duas décadas atrás, lhe presenteava a minha com muita gentileza. Por um instante a fito atônita, me ama. No instante seguinte adormeço.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Acamada

O corpo fala, diz não. Insisto na loucura. A amiga arquiteta do meu lado, a sua mão na minha, a minha pélvis dolorida da noite anterior. Ela voltava como quem nunca se foi. Queria perguntar tanta coisa e no fundo saber de coisa nenhuma. Que ela tivesse partido num carro apertado de tantas mulheres pouco importava, nem deus é fiel. A quentura dessa mão na minha sobe a minha temperatura, arde a minha garganta, eu tento falar e não consigo. Estou num sonho nessa casa azul, com uma janela expondo o verde da mata e a sua mão na minha? Pouco importa se é sonho ou real, é bom. Ela por vezes me sorri quando abro os olhos. O meu corpo excitado responde. O ar arranha a garganta na direção dos pulmões. A contração do desejo é real e dolorida.


domingo, 7 de setembro de 2008

O corpo



Ensandecida ia pela rua, boca fechada discursava o corpo, balançava na avenida em movimentos incertos, em requebros que não se esperariam de um corpo assim no meio do povo, transeuntes feitos de contas, de trabalho, de tanta coisa, que não reconhecem o discurso dos lábios de espanto, mudos de espanto, da vigília doída de braços e pernas na busca eterna por instantes de descuido. Ela vinha, passos largos cruza a faixa de pedestres como se já não fosse um pedestre. Transmudada que estava pelo roteiro escrito em seu corpo com a pena de língua molhada, agora saliva seca colada em seus poros exalando um cheiro rude, de gente. Ela era um filme vivo, na tela das ruas, incompreendida pelos de poucos vícios, pelos incultos na magia da vida. Andava só e iluminada num domingo de sol na avenida escaldante.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Dos males da espera



Parecia que atrás de mim tinha alguém lendo um livro, ao meu lado filas imensas de cadeiras tanto para a direita quanto para a esquerda, à frente apenas duas filas de cadeiras plásticas azuis desconfortáveis, para trás eu não podia saber nem olhar já que tinha alguém bem ali, talvez sentado um pouco a minha direita, talvez de olho na minha nuca, ou quem sabe na cadeira à esquerda da cadeira atrás da minha. Pelo pouco que lembrava de há duas horas e meia atrás, no exato momento em que entrei na sala e escolhi entre as cadeiras vazias em qual me sentar, uma que não parecesse muito no canto, nem muito no centro, me parece que havia como umas vinte fileiras ainda atrás de mim. Mas não seria de bom tom olhar já dizia minha mãe, isso podia bem atacar os nervos caso o sujeito, no exato momento em que eu virasse o meu pescoço num ângulo de mais de noventa graus em sua direção, não estivesse lendo o livro e sim me encarando pelo simples fato de que eu não conseguia sossegar nessa cadeira, tanto pelo desconforto quanto pelas horas de espera. A minha perna direita, desde que me conheço por gente, tem essa mania estranha de ficar balançando ritmadamente e imagino que um desavisado, que por ventura ficasse observando esse frenético repetir de movimentos também pudesse ficar atacado dos nervos, e seríamos então, já duas pessoas com os nervos à flor da pele numa sala com não sei quantas cadeiras ocupadas. Uma pequena multidão ansiosa e com os nervos alterados. Nos dias de hoje, nos dias de ontem também embora se prefira o saudosismo lírico do passado, é sempre perigoso um grupo de pessoas juntas, numa situação desconfortável e entediante. Não trouxera um livro comigo e me restava senão contar o número de balanços da perna para passar o tempo, o que aumentava a velocidade do balanço até sentir uma dor insuportável na coxa que sustentava a perna suspensa, aí parava por alguns instantes, anotava o número de balançadas atrás do papel com o meu número de atendimento e descansava alguns minutos. Trezentos e vinte e quatro era o meu número. Neste intervalo lembrava da pessoa atrás de mim, que tinha consigo um livro e mesmo assim se ocupava em observar meus poucos cabelos brancos na nuca aquela altura da vida, eu era jovem ainda, mas eles apareceram cedo e não me glorificava nem um pouco saber que o sujeito os mirava, talvez até contasse o número de fios de cabelos brancos, entediado que poderia estar da leitura do seu livro. Trocava as pernas de posição, agora a que antes estivera por baixo por cima, e o balançar passava da direita para a esquerda ou vice versa. Se ao menos tivesse trazido comigo as algemas que minha mãe costuma usar em casa quando alguém não se comporta, poderia virar abruptamente e pegá-lo de surpresa, depois era só alegar um ataque dos nervos, tão comuns nos dias de hoje, embora nos dias de hoje deveria também contar com a possibilidade de que o sujeito embora lesse um livro, poderia ter consigo uma arma de fogo e aí o azar seria todo meu, se num ataque de nervos seus sobrassem miolos meus pela sala.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Cafezal



baseado nas peripécias de G.

As saias longas e revoltas, coloridas, o sussurrar dos tecidos nos ouvidos destoa entre os sons, agora distantes, das folhas miúdas das copas das árvores a farfalhar ao vento. São os braços ao alto que encurtam as saias antes cobrindo os joelhos, são os joelhos no meio das pernas e um odor novo misturado ao dos grãos de café verde, recém colhidos, aprisionados pelos dedos, despejados nos cestos e algibeiras. Ela perambula entre os cestos, rodopia com as saias rodadas. O ritmo da colheita se intensifica com o passar das horas, com o sol que cresce redondo no céu. A testa goteja e, por entre as pernas, escorre um fio quente de suor. Ela espalha com o pé desnudo a terra seca, faz castelos de areia no ar, corre circundando saias e pernas, e do alto dos seus oito anos entontece com esse cheiro ainda desconhecido de xoxota que paira no ar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vontade



Num impulso levanto do último assento do banco do ônibus exatamente ao mesmo tempo em que ela se levanta. Eu iria para o trabalho a essa hora. Que se foda o trabalho. Depois posso dizer que tive umas cólicas horríveis, ou então que comi um acarajé estragado na esquina. Os anéis cintilam com a luz do sol forte incidindo sobre os dedos longuíssimos e delicados, verão quarenta graus. Eu a três passos do seu corpo, quase sinto o perfume. Ela por detrás de seus óculos de sol alheia ao mundo, às buzinas, aos carros, aos trezentos transeuntes que se acotovelam pelas ruas, é ali que eu quero entrar também, quero sentar e tomar uma xícara de café, na sua vida, e só.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Pra não dizer que não falei de flores



Ela dome, dorme muito. Eu finjo que escrevo para um blog. Coisa de adolescente que fica em casa vendo a Angelina Jolie no Tomb Rider, e depois bate uma punheta. Lá fora tem o sol, o dia e a praia. Aqui dentro tem uma ressaca de anteontem, das piores. É a última vez que misturo bebidas. É a última vez que digo que misturo bebidas. Li na internet sobre um cara que ficou milionário, achou uma jazida de minério de ferro, um dia ele era pobre, agora milionário. Gasta zero vírgula muitos zeros dois por cento do que ganha em projetos filantrópicos e vira notícia, não sei se por causa das onze casas de milhões cada uma que tem espalhadas pelo mundo, ou se por causa desse projetinho que a gente sabe nunca vai resolver nada. A nova lógica da sociedade, não importa que as grandes companhias ganhem bilhões com trabalho escravo e/ou destruindo/poluindo a natureza, desde que elas gastem uma porcentagem ínfima dessa grana com propaganda na televisão sobre pseudoprojetos ambientais/sociais que, de novo, a gente sabe que não vai resolver nada. Viva os publicitários que também levam o deles em troca de mulher pelada em propaganda de cerveja. De iogurtes também como me contou uma amiga: uma senhora pobre comprava um tal iogurte porque ela tinha prisão de ventre, e a televisão dizia que o tal produto resolvia prisão de ventre! Cadê o governo numa hora dessas, cadê os meus impostos que vão e somem nessa vala sem fundo de corrupção. Cadê a educação gratuita e de nível razoável?! Nem me incomodo de pagar impostos, mas viver a lá americano e pagar imposto europeu já é um exagero. Mais um exemplo do mesmo: os publicitários enchem o bolso com os comercias, o povo semi-analfabeto assiste trinta propagandas por dia dizendo beba que é bom, beba que você vai ter mulheres lindas (afinal as propagandas são feitas por/para eles), depois vem o governo e diz que a você vai pagar mil reais de multa por estar dirigindo após beber um copo de chope, o governo também ganha, os policiais sorriem com o inflacionamento da propina, enquanto em Brasília eles nem se incomodam tirando da cartola as suas carteiras de funcionários de altos cargos do governo abrindo e fechando portas à revelia. E a gente vai levando, e a gente vai bebendo, que também sem uma cachaça, ninguém segura esse rojão!

sábado, 2 de agosto de 2008

Fim de mês


Na sexta-feira à noite entrei no cinema com a carteirinha de estudante emprestada de uma amiga, a minha cara ela, eu a cara dela, ou quase isso. Assisti Nome Próprio, a Leandra Leal está maravilhosa como sempre, salva tudo. Na saída encontrei ao acaso com um casal de amigos super simpáticos que me pagou uns quatro chopes. Rio de Janeiro, ir à padaria num domingo pela manhã comprar pão pode terminar à noite num boteco de esquina, isso depois de uma tarde torrando miolos nas areias de Copacabana, ao menos a gente se livra da neura da solidão. No bar ainda conheci a Manoela, ela veio e disse que o meu sorriso era lindo. Bastou. Gastei minhas últimas sessenta pratas no banco numa garrafa de uísque. Valeu. Terminamos as duas em casa dançando agarradinhas “Dois pra lá, dois pra cá”. Na semana que vem vou ter que descolar comida na casa de alguém. O pagamento do freela só sai na próxima sexta.

ps.:o filme "A ostra e o vento" com a Leandra Leal novinha é muito bom!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O ovo roubado

Há cento e cinqüenta milhões de quilômetros está o sol, depois Mercúrio e Vênus, logo em seguida a atmosfera, atravesso nuvens esparsas, desço avidamente de encontro à floresta, às copas verdes das árvores, pinheiros americanos, a cancela e o homem da cancela, a segunda cancela e o homem da segunda cancela, uma casa geminada num condomínio fechado, um dia de sol depois de uma noite de frio, o ar da montanha, a mão dela na minha, a minha mão na boca da ovelha, uma estrada de pedras, um lago, um pato, uma pata, um ovo, outro ovo querendo nadar no lago. Dois ovos embrulhados num cachecol.Ei, você pegou o ovo que estava aqui?Não, eu guardei lá! O caminho de pedras, a segunda cancela, a porta de casa, a frigideira, os melhores ovos mexidos do ano.

terça-feira, 15 de julho de 2008

A menina que levitava





A primeira vez que a sensação ameaçou florescer ela tinha ainda quinze anos, foi em meio às árvores do Jardim Botânico, enquanto andava na grama verde segura pela mão por um amor agora distante. Não apenas seu corpo finalizava detalhes, acentuando os traços do nariz e da testa, os seios delineavam derradeiros contornos, as mãos se formatavam nas futuras mãos de Luíza, era um protótipo último do que seria Luíza. O corpo se preparava para a noite de estréia, também a alma guardava dentro dela um espaço nebuloso do lugar do porvir, o nebuloso transmudando em constelações, em buracos negros. Pequenas premonições fremiam o corpo com uma certa regularidade, anunciavam o inusitado. De algum modo ela sabia que era diferente dos outros, mesmo porque eram todos assim tão diferentes entre si: sua mãe no mundo das pílulas coloridas para dormir, para acordar, para viver; seu pai às voltas com o mundo dos sonhos alegrando a casa, seus dois irmãos, gêmeos na disputa dos mesmos objetos, dos mesmos afetos. Ela crescendo e observando, observando e crescendo.

Demorou ainda alguns anos para que o esperado ocorresse, teve tempo de terminar o segundo grau e entrar na faculdade como era o sonho da mãe, cursava letras.

Agora, faz anos desde a primeira vez. Foi à noite na penumbra de um quarto numa cama emprestada. Uma quarta-feira chuvosa, dessas chuvas miúdas que prometem lembranças e dias e mais dias nublados. Entre sussurros Teresa pediu, abre as pernas neste instante ou morro de amores. Foi assim que Luiza prescindiu de dúvidas e pudores, pôs os pés para o alto e disse em bom tom como uma atriz de mil luzes, me chupa com vontade que de meias vontades estou farta. Foi assim que Teresa fechou os olhos e, pela primeira vez, sentiu entre pêlos o gosto salgado de uma moça. Foi assim que, pela primeira vez, Luiza sentiu o colchão a fugir do corpo, uma camada de ar sustentando-o teso, excitado, levitava a um palmo da cama a caminho do gozo.

domingo, 13 de julho de 2008

Mulheres




Eu não tenho um trabalho decente.
Eu não tenho um dia de sol.
Eu não tenho comida na geladeira.
Eu não tenho televisão a cabo.
Eu não tenho uma namorada.
Eu não tenho forças.
Eu tenho TPM.











sexta-feira, 4 de julho de 2008

História


trecho do livro Histórias de Cronópios e de Famas, Julio Cortázar


Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.

domingo, 22 de junho de 2008

Vida moderna




Deu três pulinhos e gozou. Deu quatro beijos e se despediu. Deu sete passos e saiu pela porta. Desceu treze andares e saiu do prédio. Dei meio suspiro e dormi.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Casamento


desenho:http://despacha-te.blogspot.com/

O som da banda era estupidamente alto, ela teve que chegar bem perto do ouvido para ser ouvida, o ombro praticamente roçou o seio direito, talvez por acaso. Sorriu e dirigiu o rosto na direção do outro rosto, a mão na cintura puxou-a com firmeza para junto de si, os lábios se moveram ao pé do ouvido num falar inaudível, um sorriso enfeitou o rosto. Por um instante, eu que admirava recostada no balcão, fiquei esperando pelo beijo, mas as duas usavam saia naquela festa de casamento, com aia e vestido branco démodé.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Um conto na Moviola


Meu mais recente conto, 4x4, acabou de ser publicado na Revista Moviola:

Gotejava sobre o ar condicionado do lado de fora da janela, a cortina de um verde puído, Ana limpava as unhas esparramada entre travesseiros sobre a cama de solteiro. Chovia há seis horas, fazia quarenta graus dentro do quarto e no rádio tocava “o meu destino é ser star…”. Se tivesse dinheiro compraria um jipe...

Continua no site da Revista, clique aqui.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Cachecol Verde




Deu duas voltas no cachecol verde em torno do pescoço para pensar melhor, mesmo sendo inverno o ar condicionado da sala estava ligado e os menos prevenidos estavam com as faces marcadas pelo frio. Quase se ouvia o tilintar dos dentes. “Atualmente existem equipamentos capazes de produzir imagens de 16 milhões de cores. Nossa percepção, no entanto, não registra todos estes tons... ", diante dessa afirmação ela era capaz de registrar bem mais do que cores ao lembrar do sábado à tarde; havia os cheiros, as curvas dos corpos e o mais importante, a sensação da pele sob suas mãos. Precisava concentrar-se, de alguma maneira, voltou a questão: “... assim como sequer temos nomes para todas elas. No jornal a impressão colorida é sempre o resultado...”. O resultado não é exatamente o que se procura, exatamente porque um resultado supõe-se algo lógico, direto e objetivo, e as reações adversas, depois de uma boa tarde de sexo, podem diferir tanto quanto as dezesseis milhões de cores como, por exemplo, desconcentração em nível elevado nas próximas vinte e quatro horas. “...de uma base formada por pigmentos de cores primárias. As cores que determinam todas...”, parece um exagero esperar-se determinar todas as nuances fosse do que fosse, ai estas provas pretensiosas, “...na impressão das imagens coloridas são:” Agora era o veredicto final, relembrava palavras soltas no enunciado, cores, todas as nuances, milhões, jornal, primárias, aí está a resposta, primário era entregar essa prova o quanto antes e voltar correndo para debaixo do edredom desnuda. Entreleçar seus braços e pernas no corpo dela, falar baixinho, puxar as mãos para junto dos seus mamilos, dizer que gosta dela assim, nua, com cheiro de domingo chuvoso.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Carolina



desenho:http://despacha-te.blogspot.com/

Depois doía entre as pernas, não que houvesse andado de bicicleta por horas como era costume nos finais de semana, cruzava a orla em direção ao parque metodicamente aos sábados. Neste não podia. Pedalava no sol quente, em sua caloi 10, equipada com boné, óculos escuros e fones de ouvido, nove quilômetros e meio. Via o mar, depois prédios seguidos de verde, mais a frente puro verde no aterro. O aeroporto era o limite, não gostava de aviões e seu barulho. Sentava de longe, perto do mar para com o som das ondas marolando abafar o som das turbinas, e boquiaberta via o alçar vôo das imensas aves metálicas. Há três meses a mesma rotina, nem sabia se gostava realmente da rotina, mas como rotina fosse devia ser repetida para que não se transformasse em outra coisa. Sob a areia conheceu Carolina, há duas semanas atrás, conversou e tomou água com bolinhas, pela mão foi levada para perto da pista de decolagem sem sentir medo. Duas semanas mais tarde, veio Carolina lhe visitar a cama na sexta-feira à noite. Tirou as suas calças, calcinha e brincou a noite toda sua xoxota com a língua, também não sentiu medo. E agora, agora doía entre as pernas.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tempo



O movimento dos corpos pesados da direita para a esquerda e da esquerda para a direita fazia fremir a água morna da piscina, uma vez ou outra, do teto pendia uma gota do vapor condensado no teto tal era o contraste da temperatura dentro e fora do prédio. O céu estava azul e ensolarado, embora em nada isso servisse para espantar o frio. Nenhum vento no rosto ou transpassando os minúsculos orifícios do tecido vindo tocar a pele resguardada, apenas o gélido ar cruzando as narinas, percorrendo as vias respiratórias e deslizando morno pela boca afora.Vinte e três na piscina àquela hora da manhã, cedo ainda para preparar o almoço, já tarde para levar o filho à escola ou chegar no trabalho, embora destas mulheres apenas os netos ainda freqüentassem a escola e os tempos de trabalho oficial há muito se haviam encerrado. Buscavam no balançar da água um pouco de vida, um pequeno universo se reproduzia três vezes por semana, a agitação pré-escolar na terceira idade buscando não se sabe bem o quê, a risada muito alta de uma procurando insistentemente uma adolescência que se foi, o rosto sincero da outra que, na perda do marido, reencontrava o mundo, o exercício metódico de uma terceira acostumada a governar empresas e agora desvendando águas. Corpos exercitando equilíbrio, força e coordenação. Depois, uns poucos passos até em casa para algumas, dois ônibus pela frente para outras ou ainda um carro conduzido com cuidado pelas vielas da cidade. Elas retornam para apartamentos vazios, ou para a companhia de cães, gatos, livro, do marido, da música, de filhos e lembranças que colhem na memória em dias de chuva.

domingo, 27 de abril de 2008

No ônibus


Aqui do último banco do ônibus vejo bem as pernas, a saia apertada define o músculo da cocha, os cabelos longos anelados e, quando o acaso vira o seu rosto em direção à porta de entrada do ônibus, titubeio. Eu e minha heterossexualidade. Deve ter seus quarenta, quarenta e poucos anos, a pele bem cuidada, os dedos decorados de anéis. Senta altiva a tomar conta do mundo que gira em seu redor, a preocupar-se com o crescer das folhas nas árvores, com o marolar das ondas na beira da areia. Esse ônibus circula porque ela está dentro dele, o trocador ajuda a roleta a girar por sua causa, eu respiro tão e somente pela sua existência. A mulher de cabelos curtos, que mal respira em pé ao lado do seu banco, me causa inveja pela proximidade, pela vista dos seios.