segunda-feira, 16 de julho de 2007

Desafio

A garganta doía, era o frio a cortar-lhe as amígdalas, tentava respirar pelo nariz, mas era sempre pouco o ar entrando por estas vias apertadas, tinha o vento que driblar pêlos e cavidades diminutas inundadas por mucosas. Ela apertava o passo em direção, olhou para os lados, todo o parque desarvorado para atravessar, seguia pelo túnel de vento no caminho vazio, sete da manhã e os pés afundando na neve, sem graça essa neve das manhãs a caminho da escola. Ali a frente a ladeira de gelo, dessa vez não cairia prometeu a si mesma, mas colocar as ameaçadoras pontas metálicas por debaixo dos sapatos era apenas para pessoas idosas, preferia o risco logo pela manhã, tinha ainda nas nádegas doloridas a lembrança de ontem ao se enveredar pelo caminho íngreme, diminuiu o passo adiando o embate, via a crosta dura de gelo ameaçadora, polida, sem nenhuma reentrância que lhe provasse que seria possível subir o caminho, nenhum homem havia ainda passado por ele nessa manhã. Parou ao pé do gelo. Deixou a neve macia para trás. Olhava aterrorizada para a subida de uns dois metros. O sol dormia ainda ali perto. O corpo rijo, o olhar agora desafiador carregado de uma falsa confiança, ensaiado o primeiro passo sentiu na sua uma mão. Aproveitou o inusitado da situação para não olhar ao lado, seguiu o ritmo e caminho das pernas ao seu lado num impulso, carregada pela segurança da mão, em dez passos trôpegos venceu o duelo, mirou o salvador e esbaldou-se num sorriso dividido entre aliviado e encantado com a formosura da moça.

4 comentários:

Líz disse...

Merci! rs
falando em fotos... Vi uma ilustra�o muito cab�vel a este blog.
Gostaria de lhe passar.

As f�rias travam as minhas m�os.

Naomi Conte disse...

pode me enviar a foto Liz.... aguardando!

Fillipe Mendes disse...

Gosto muito de sua narrativa...acho muito bela e interessante...principalmente pela brevidade dos contos...

Thaís disse...

Promete que pega minha mão?
Das rugas á lã!