domingo, 8 de novembro de 2009

Deu no jornal

Não é a toa que o caderno de esportes e economia venham lado a lado nos jornais, ambos são uma caixinha de surpresas. Mesmo que se troquem os atacantes/diretores, as regras não mudam. Palpite é o que não falta. Cada um diz o que quer. E agora em meio a crise, para ajudar os inescrupulosos indústrias e bancos, que por anos à fio viram seus lucros aumentarem através do trabalho alheio, o povo paga. Auxílio finaceiro, como sempre, só para os ricos. Aqui e lá fora. O caderno de futebol ao lado distraindo os olhos das mazelas do mundo. Pão e circo para todos!

sábado, 24 de outubro de 2009

O corpo de cada dia


Faz dois meses deixei de escrever: ela me consome, eu me consumo entre quatro paredes. Faz dois meses não abro janelas pra ver tudo o que já vi antes, a copa das árvores, os carros na rua, procuro novidades no ar nauseabundo enclausurado por paredes maciças, traço a cada dia minha novidade no corpo.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Moça na janela



Era um abafamento de dar nó no corpo, as entranhas todas ressecadas, ela bebia um copo de água atrás do outro numa tentativa inútil de sentir suas células irrigadas. A jarra na mesa ao lado do sofá, o copo na mão direita e a televisão ligada no horário do telejornal da noite. Da janela vinha o bafo quente da boca escancarada da noite. A balela de sempre na televisão, crise aqui e acolá, violência acolá e aqui. Estendeu o pé sobre a almofada suja, apertou os olhos com força esperando que o fantasma da imagem sumisse, subiu e desceu com a mão o bombril pela antena na tentativa de melhorar o sinal. Desistiu. Foi até a janela e com a mão delicada tirou a cortina de chita da frente do seu campo de visão para ver o esgoto que corria como um riacho rua abaixo. A lua se escondia por detrás de nuvens carregadas, a tempestade se armando. No final da rua três crianças brincavam com uma bola já molhada do esgoto, um cachorro mal tratado corria atrás da bola no que parecia ser a sua primeira alegria do dia.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Memórias de chuva


serenade for the doll

le ..n...t.... a..... m......e..........n..............t..................e

g........t.......j...........a.........v
o.......e.....................
........................................................a

do meu corpo

a presença
do seu

sábado, 26 de setembro de 2009

Demasiado ar

serenade for the doll

O telefone é um poço de ansiedade, estou aqui a três horas, dezesseis minutos e cinco segundos com ele no bolso. Talvez. Enquanto ele não toca fico na expectativa, que pode ser boa, que pode ser ruim. O melhor mesmo é esperar, uma vez que ligue, o coração palpita, os pensamentos se confundem, saem contradições pela boca. Ela se foi faz três dias, foi comprar cigarros com uma mochila as costas, com intenções a frente. Primeiro um certo alívio, as roupas todas pelo quarto, a louça em cima da pia, o esparramar-se na cama, a boca muda. Respiro há três dias, começo a sufocar esse exagero de ar não compartilhado.

sábado, 12 de setembro de 2009

Manhã de sábado de uma sexta intensa


Eu sou a moleza dos sábados de manhã, e você?
A vontade que deixa a moleza de lado e faz o que parece que tem que ser feito.
E o que tem que ser feito?Não pode esperar?
Se pudesse esperar não era vontade pura, vontade quando dá mesmo, é insuportável.Dilacera a espera.
Pois bem, nesse instante tenho uma vontade insuportável de ter moleza! Eu sou esse gato aí de cima.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Filhas


Satisfeita! Não de barriga cheia, como dizem os bebês. Depois, um peido retumbante surpreendeu a todos, e Larissa correu em volta da mesa procurando pela mão amarela. Sua mãe sorriu sem graça entre gargalhadas alheias. Que noite! Fazia quinze dias havia combinado: não esqueça que na sexta feira do dia treze ela dorme na sua casa. Está acertado! De última hora uma viagem de trabalho, e agora Larissa desinibida troteava no contorno da mesa verificando uma a uma as palmas das mãos. Levantou-se da mesa para buscar a torta sobre a pia da cozinha coberta por uma calda de chocolate espessa e aveludada. A convidada, especificamente para este jantar pelos amigos, levantou-se no seu encalço no intuito de ajudar, com o preciso interesse em alguns segundos de intimidade. Larissa correu entre as pernas da mãe e com um enorme sorriso possessivo encarou a estranha. Num pestanejar, entre três pares de mãos distribuíram-se guardanapos, pratos, colheres e torta. Elogios vieram dos quatro cantos, e da convidada um gracejo demorado. Por debaixo da mesa sucedia um concurso imaginário de sapatos de única jurada. Larissa, venha logo comer a sobremesa. A água sobre o fogão fumegava avisando que era hora do café, e numa segunda vez a dupla de outrora deslizou furtivamente à cozinha. Por alguns instantes os olhares na cozinha aguardaram a chegada da onipresente Larissa. Os ouvidos atentos perscrutavam um som diferente e, na infinda indecisão, prepararam mudas o café. Larissa, aconchegada no tapete embaixo da mesa, dormia já o seu quinto sono. Num olhar cúmplice mãe e convidada suspiraram de tranqüilidade.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Dissabores

Uma tênue nuvem de fumaça escapulia pela porta entreaberta. A arquiteta fuma a intervalos contínuos. A languidez postada sobre a cama numa hora avançada da noite. Uma sombra na parede anuncia a chegada, um minuto de silêncio é o sinal para a baixar a guarda. Nos fitamos. Do lado de fora da janela o barulho da chuva constante de inverno enerva os dias, os humores inconstantes. Calar, como quem cede, ou como o triunfo orgulhoso. Não há heróis nessa guerra, nunca há heróis em guerras, apenas um desvio de conceitos. Somos aquilo que podemos ser. As palavras reproduzindo meias verdades. Sento na cadeira olhando pingos espessos de chuva escorrendo pelo vidro, ela acende mais um cigarro ganhando tempo. Qualquer movimento brusco foi-se a trégua, a última centelha queimando, ardendo. Deito ao seu lado na cama, devagarzinho, me aninhando entre cobertas. Uma mão urgente pega na gola da minha camisa, quase rasga, me puxa para perto, bem perto, quase dentro, e assim ficamos por longos minutos.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Sonhos de viagem

Os olhos se perdem na imensidão de colinas verdejantes deslizando no horizonte, as árvores longínquas parecem arbustos navegando num mar tranqüilo, junto a janela o tempo passa correndo,listras brancas e negras perseguindo-se mutuamente, o som constante dos pneus rodando sob o asfalto embala o sono numa tarde de domingo, num domingo de viagem. Sonhos intermitentes sacudidos por sobressaltos, ela aparece e desaparece, ela acompanha o vai e vêm de imagens fugazes, ora observadora, ora atuante. A impotência frente a beleza que se oferece, num instante estico o braço buscando envolvê-la e um quebra molas interrompe o movimento, num outro tento falar-lhe de amores e uma curva me desperta, assim viajamos as duas numa seqüência infinita e ardilosa de encontros e desencontros.

domingo, 19 de julho de 2009

O Brasil, samba que é...

A classe dominante brasileira tem uma posição muito confortável. Ela pode reclamar que é explorada quando olha para os EUA, e se comportar como exploradora quando olha para os índios, negros e camponeses. É o melhor de dois mundos. Você consegue explorar o explorado e fingir que é explorado diante do explorador, e no intervalo vai passar as férias em Paris.

Outra questão é a própria idéia de desenvolvimento. A humanindade não pode mais crescer. Sou a favor do crescimento zero, de caminhar para uma redistribuição em escala planetária da riqueza. Frases como "continuem consumindo" e "comprem mais carros" são criminosas do ponto de vista da espécie. Nesse sentido, a palavra desenvolvimento é péssima, e a palavra crescimento pior ainda. Nem todo desenvolvimento envolve crescimento econômico; o PIB não mede porcaria nenhuma. O Butão criou um índice de felicidade interna bruta (FIB). Parece piada, mas talvez não seja completamente idiota. Os EUA, que tem um PIB bem maior que o do Brasil, não creio que teriam um índice de felicidade interna bruta maior que o nosso. Não parecem um povo particularmente pacífico, alegre, saudável. Ao contrário: toda semana alguém mata quarenta escolares em algum lugar do país e a obesidade é galopante. Nada que nos faça mirar nos EUA como exemplo da civilização. O Brasil precisa se desenvolver: aumentar o senso de equidade, de justiça, aprender o que é prioritário.

palavras do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro.

domingo, 12 de julho de 2009

Casamento

foto de Ana Cristina Loureiro

Quem visse Janaína cruzar a rua àquela hora do dia, com um sol luminoso a confundir sua pele translúcida com réstias de sol, jamais pensaria que aquele era um dia ruim de sua vida. Vinha ela às pressas, num vestido etéreo, do casamento de sua prima. A festa ainda agora começava, as pessoas procuravam por seus nomes em delicados cartões de papel sobre a mesa, Márcia estava feliz por compartilhar a mesa com Tadeu – adivinhavam-lhe os pensamentos, a família Souza toda reunida espremia-se em volta da mesa de modo que todos se acomodassem, a noiva e o noivo, agora já mulher e marido ocupavam a mesa central numa posição em que todos os mantinham à vista, e Janaína voltava para casa. Havia algo de muito humano dentro dela, de muito dolorido também, algo que sua tenra idade debatia-se em compreender, como explicar a si mesma aos onze anos uma percepção intuitiva de que perdia o desejado amor da prima.

domingo, 28 de junho de 2009

Essa criatura homem

mais Ítalo Svevo e A consciência de Zeno:

A vida atual está contaminada até as raízes. O homem usurpou o lugar das árvores e dos animais, contaminou o ar, limitou o espaço livre. Mas o pior está por vir. O triste e ativo animal pode descobrir e pôr a seu serviço outras forças da natureza. Paira no ar uma ameaça deste gênero. Prevê-se uma grande riqueza... no número de homens. Cada metro quadrado será ocupado por ele. Quem se livrará da falta de ar e espaço?Sufoco só de pensar nisso.

E infelizmente não é tudo.

Qualquer esforço de restabelecer a saúde será vão. Esta só poderá pertencer ao animal que conhece apenas o progresso do seu próprio organismo. Desde o momento que a andorinha compreendeu que para ela não havia outra vida possível senão emigrando, o músculo que move as suas asas engrossou-se, tornando-se parte mais considerável do seu corpo. A toupeira enterrou-se e todo o seu organismo se conformou a essa necessidade. O cavalo avolumou-se e os seus pés se transformaram em cascos. Desconhecemos as transformações por que passaram alguns outros animais, mas elas certamente existiram e nunca lhes puseram em risco a saúde.

O homem, porém, este animal de óculos, ao contrário, inventa artefatos alheios ao seu corpo, e se há nobreza e valor em quem os inventa, quase sempre faltam a quem os usa. Os artefatos se compram, se vendem, se roubam e o homem se torna cada vez mais astuto e fraco. Compreende-se mesmo que sua astúcia cresça na proporção de sua fraqueza. Suas primeiras máquinas pareciam prolongamento de seu braço e só podiam ser eficazes em função de sua própria força, mas, hoje, o artefato já não guarda nenhuma relação com os membros. E é o artefato que cria a moléstia por abandonar a lei que foi a criadora de tudo o que há na Terra. A lei do mais forte desapareceu e perdemos a seleção salutar. Precisávamos de algo melhor do que a psicanálise: sob a lei do maior possuidor do maior número de artefatos é que prosperam as doenças e os enfermos.

Talvez por meio de uma catástrofe inaudita, provocada pelos artefatos, havemos de retornar à saúde. Quando os gases venenosos já não bastarem, um homem feito como todos os outros, no segredo de uma câmara qualquer neste mundo, inventará um explosivo incomparável, diante do qual os explosivos de hoje serão considerados brincadeiras inócuas. E um outro homem, também feito da mesma forma que os outros, mas um pouco mais insano que os demais, roubará esse explosivo e penetrará até o centro da Terra para pó-lo no ponto em que seu efeito possa ser o máximo. Haverá uma explosão enorme que ninguém ouvirá, e a Terra, retornando à sua forma original de nebulosa, errará pelos céus, livre dos parasitos e das enfermidades.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Um recital sem quarteto de cordas


Tédio
profundo tédio
som, som, som
palavras
repetidas palavras
para efeito, defeito sonoro
prefiro o Noll
e a buceta

sexta-feira, 12 de junho de 2009

A Consciência de Zeno (1923)

de Ítalo Svevo:

"Quis mesmo muito bem a Ada naquele momento, e é uma coisa bastante estranha querermos bem a uma mulher que já desejamos com ardor, que não foi nossa e que agora nos é indiferente. Em suma, chega-se dessa forma à mesma condição em que estaríamos se ela tivesse então cedido ao nosso desejo, e é surpreendente poder constatar mais uma vez como certas coisas pelas quais vivemos acabam por ter importância insignificante."

sexta-feira, 22 de maio de 2009

À deriva

serenade for the doll

Uma descarga de futuro nos nervos nesta sexta feira. Um destes dias em que a mente, por ousadia descabida, põe-se a planejar o dia de amanhã, mais precisamente, as próximas férias, como se pudesse ter o controle sobre um vôo, um hotel, uma paisagem, um dia de sol ou de chuva. Assim foram checados diversos vôos, localizações de hotéis, apartamentos, preços, proximidade com pontos turísticos, e o frio na barriga crescia pensando na antecipada alegria de se viajar com quem muito se gosta. O casaco invernal que terá de ir na mala, o cachecol vermelho, as luvas pretas, botas, adoradas botas, o abraço caloroso no meio da rua. Sinto já o cheiro do café fumegando na xícara, as páginas dos livros tocados, sentidos, vistos, o barulho do rio ao longo do caminho, as folhas das árvores farfalhando no parque, os quadros e esculturas enchendo os olhos de luz, o vento cortante no rosto, o bar aconchegante descoberto numa caminhada despretensiosa, e a noite, na cama quente, o seu corpo enroscado no meu. Reserva? Nenhuma, deixo por conta do divertimento do inusitado.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Mi sexo

na falta de tempo para inspiração, um lindo poema de Cristina Peri Rossi (do livro Estrategias del Deseo):

Mi sexo

Mi sexo no es un buen consejero.

Mi sexo no es de fiar.

Mi sexo sabe de mí cosas que yo no sé,
y tiene inclinaciones que me sorprendem
niña impúber que ha menstruado antes de tiempo.

Mi sexo me conduce a donde no quiero ir
y habla un lenguage mudo
hechos de gestos y de impulsos
que clamam en la soledad de la noche
como niños huérfanos.

Si conversara más a menúdo com mi sexo
posiblemente podríamos llegar a algún acuerdo:
o yo lo mato a él
o él me destruye a mí.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Pintada




A nudez do seu corpo sobre a cama, a sombra titubeante da perna no lençol branco, a luminária desligada e velas espalhadas pelo quarto, a árvore de luz sobre a cômoda, três ou quatro velas pelo chão. Tenho na mão o pincel fino, elegante, carregando escritos que inadvertidamente surgirão nas pontas das cerdas, onde se refugiam desenhos que pouco a pouco transferem-se sobre o seu corpo, delineando os seios, cobrindo o ventre, enfeitando o corpo para o desenlace da noite.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Uma sapa na cozinha



Macarrão ao curry:

Meio quilo de contrafilé.
Uma cebola grande.
Uma lata de creme de leite de 200 ml.
Azeite extra virgem.
Curry.
Pimenta calabresa.
Sal.
Meio quilo de macarrão.

Coloque a água para o macarrão para ferver (muita água). Corte o contrafilé em quadradinhos e cubra-os com o curry por todos os lados, acrescente sal e pimenta calabresa à gosto. Pique a cebola e frite no azeite(pouco azeite), quando ela estiver dourada acrescente o contra filé já temperado aos poucos, não deixe juntar água durante a fritura(a idéia é que eles fiquem mal passados por dentro). Depois de frito acrescente uma lata de creme de leite com tudo (não retire o soro). Está pronto o molho. Junte ao macarrão e bom proveito. (acrescente queijo parmesão por cima se gostar).

sábado, 18 de abril de 2009

Manhãs de outono




Acordei antiga, coisa do vento de outono entrando pela fresta da janela, me traz ares de infância, embora o frio geográfico de agora esteja minimizado. Antes, saía da cama feita com três cobertores e vestia, sobre o pijama, a calça jeans, o pulôver tricotado a mão e um casaco mais sobre tudo isso. O frio de dentro concorria com o frio de fora, as paredes de alvenaria guardavam o frio por dias, a amplidão do pé direito deixava circular o minuano por qualquer fresta. Descia pela manhã as escadas de degraus altos e corrimãos de madeira até a cozinha, porta fechada. Lá dentro o calor de um fogão a lenha desde cedo fumegando, passara a muito a hora do primeiro chimarrão. Às vezes, escondido, vinha um gato dormir aconchegado embaixo do fogão de puro ferro. Na chapa quente do fogão aquecia uma torrada feita com manteiga, queijo e presunto, apertada com força por uma tampa de panela por alguns minutos, saía crocante, cheirosa. Ensaiava com a torrada uma xícara de café em frente ao fogo, sentada numa cadeira e com os pés dispostos em frente a tampa aberta do forno. Depois, finalizando as manhãs de outono, vinham os pinhões assados sobre a chapa acompanhados do chimarrão pré-almoço.

domingo, 5 de abril de 2009

Música

Nem só de pó era feita a mulher, conclui depois de ouvir o som afinado saído de seu violino. De ver, com os olhos bem fechados, a sua face concentrada, ao tocar um instrumento, gravada no fundo de minha memória. De sentir, a dois metros de distância, a energia vibrante de seu corpo ereto se esvaindo em música. Ela era também a solidez da dedicação, a alvura dos dedos dedilhando as cordas, o desejo inconscientemente desperto a sua volta, a vida se pronunciando em acordes.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Inconstâncias




Era assim, ela ia e vinha em espasmos nada regulares. Eu não mudava mais de casa com medo de perder o contato. Controlava a vontade de deixar a porta entreaberta. Eu também ia e vinha entre outras mulheres, era um momento de espera, eram os planos que não se definiam. Quando ela em casa, passávamos dias trancafiadas, a secretária eletrônica abarrotava de mensagens de ligações não atendidas, fazendo amor e versejando sobre mil temas, falávamos do aquecimento global, de um novo escritor que nos interessava, de um filme no cinema, do tempo de norte à sul, até mesmo de dias de chuva na Finlândia. Seu corpo, uma eterna novidade nestas idas e vindas. Então, sem mais nem porquê, nos enchíamos e nos provocávamos com aventuras amorosas alhures, reais ou inventadas, até o insuportável de mais nada falarmos, nessa hora ela saía ou eu saía pela porta, tudo muito bem entredito. Nos afastávamos por um interstício, longo ou pequeno?Quem sabia?

quarta-feira, 18 de março de 2009

Apressada

Aqui é dia, é quente, é verão. Ela acende a luz do quarto e não desliga o ventilador, abre a janela e sorri com os seios à mostra para a vizinha que fecha a janela correndo. Deixa deslizar sobre o corpo a água fria refrescando o exterior, se aproxima da cama e, de longe, digo, com o corpo afastado e os lábios próximos, beija o sorriso na face da outra, ele engrandece. Ela corre para a cozinha fugindo do pau duro matutino da moça se espreguiçando na cama. A água translúcida atravessa o pó preto do café aromatizando a cozinha. Ela leva até a cama um pão na manteiga apertado na frigideira, e duas xícaras de café feito dois canos fumegantes. Apressa a dormida. Acaricia a dormida. Lambe a orelha da dormida. A ex dormida, de pau duro, olha com um largo sorriso e rememoria a apressada de que é sábado.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Big brother

Primeiro foi logo na entrada, acima da mesa, sobre a televisão, que agora televisiona a monotonia do entra e sai de personagens quase sempre repetidos. Depois, num dia quente e já com o dedo enfiado no nariz, a vi dentro do elevador, botei a língua para fora na sua direção no mesmo instante, tamanho desaforo instalar-se sem avisar. Noutro dia, enquanto lésbica feliz, lançava ao ar beijos na direção da amada na garagem do edifico, flagro num lampejo a espiã malfadada. Agora, quase acostumada ao big brother domiciliar penso já em, na próxima reunião de condomínio, sugerir câmeras nos vasos sanitários dos apartamentos para que vizinhos e porteiros, de perto vislumbrando o íntimo do ser humano, possam enfim também ocupar-se da saúde dos moradores.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

No carnaval da avenida



Entorpecida de cerveja e cachaça ela beija. Na mesa do bar traquina um pé. Na avenida samba reinando. No brilho da purpurina ela é a que mais cintila e do alto do seu salto governa um mundo. Na quinta feira depois das cinzas, vencedora ou perdedora, ela tira a camisa amarela, a máscara dos olhos, a fantasia dos pensamentos, toma o ônibus às cinco da manhã e por duas horas cochila no sacolejo, primeiro pelas vielas estreitas, depois por largas avenidas, e enterra o carnaval na faxina da madame.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Nova era


No nome a sina, Jesus. A mãe lavadeira esperava salvar o filho da mesma chaga de miséria. Nasceu ele com os olhos verdes e a pele morena, um milagre dizia a mãe. Seu primeiro banho foi no rio de águas barrentas, batizado pela mãe natureza. Seu corpo atlético inspirou-se nas cachoeiras. Na cidade grande foi levado às passarelas, onde desfilou por vielas estreitas roupas que nunca seriam suas. Numa noite de sono agitado, Jesus feito homem tirou na loteria o bilhete sorteado. Entre afagos e afetos, desfila agora desnudo nos braços de Madonna.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Noite de setembro

serenade for the doll


Foi em setembro, ela apareceu a primeira vez naquela primavera, havia desaparecido por longos oito meses, bateu na porta como sempre havia batido e entrou dando boa noite como se tivéssemos nos visto na semana passada. Ela entra e diz que hoje em dia ninguém é real, ninguém é de carne e osso, todos indo sempre, líquidos escorrendo pelas mãos, eu digo que ainda estou aqui, ela diz que não importa, que somos minoria, eu digo que vale a pena, alguma coisa vale a pena se a alma não é a que pena e sorrio buscando dentro dela um riso. Ela hoje está vestida de noite, eu de paciente ironia, abrimos uma garrafa de vinho tinto, servimos em glamourosas taças e sentamos de frente para a janela com os pés sobre o parapeito, lá fora também é noite. Ela diz para eu largar os livros, que poetas e tontos se compõem de palavras, eu digo que ser tonta é uma dádiva. Ela enrola o echarpe no pescoço protegendo-o do frio do vento, ficamos ali a ver navios flanando na noite, adormeço com a cabeça recostada no seu ombro e gentilmente ela me conduz a cama. Dormimos abraçadas até de manhã.


sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

A viúva



Numa casa respeitosa das tradições convencionais, depois de um almoço de família, depois de uma tarde de conversas, de forró de mão na mão, da mão demasiado apertada sobre a dela, dos olhos nos olhos disfarçados da viúva com filha de dez anos, quase na hora da partida, na hora do fim do dia mais que demais agradável, a viúva pergunta:
Você não quer ir ao banheiro comigo?
Hum?ela responde sem entender.
Ao banheiro, só um pouquinho!Insiste ansiosa.
Não obrigada, não estou com vontade. Ela responde entendendo.
Mas mãe, você pode ir ao banheiro sozinha.

sábado, 10 de janeiro de 2009

Vestido


serenade for the doll


O som do motor do carro se afastando, zunindo no ouvido feito mosca varejeira presa em quarto escuro, a terra em pó no meu rosto parado no portão. O azul do carro esmaece, se confunde com o azul do céu, ela foi por essa estrada sem caminho, como se sorrisse, fugindo. Os monstros em cima do muro de tijolos caiados, esperando, esperando, caminhando daqui para ali, de lá para cá. Ele segue pelo céu azul, como na música, pega o trem azul, o sol na cabeça, o calor na cabeça. No corpo, a febre. Eu estendo a mão, as duas unidas em formato de concha, aqui faz frio nas minhas mãos do lado de fora do cobertor, em concha as ofereço, ela pega, me olha e não diz nada. O trem chega na estação, elas descem, uma a uma pela porta da frente, o carro tem só duas portas, o vestido dela prende no banco e se rasga, um rasgo enorme desde a perna até onde o céu encontra o mar. A alvura da pele ofusca os olhos fugida pela fenda no azul escuro do tecido. No quarto, ela fecha a cortina guardando para mais tarde o facho de luz forte do dia que se esmerava pela beirada da cama.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Campanha: Uma semana sem cinema

Contra os preços abusivos dos ingressos de cinema no Brasil, propomos uma semana sem cinema. A idéia é fazermos uma mobilização nacional, de 5 a 11 de janeiro de 2009, na qual nós, cinéfilos e afins, não assistiremos aos filmes nas salas de cinema de nossas respectivas cidades.

O objetivo da campanha é mostrar nossa indignação com os preços elevados e excludentes da entrada inteira e com o projeto de lei que limita em 40% a venda de ingressos, com metade do preço, para estudantes e idosos em todo país em eventos, tais como: cinema, teatros, shows, eventos educativos, esportivos e de lazer. Segundo reportagem divulgada na Folha de São Paulo, esse projeto foi aprovado em dezembro (2008) por 14 dos 21 senadores, numa primeira votação. Ainda haverá uma segunda cuja data não foi divulgada.

Alugue ou baixe um filme. Mobilize-se e divulgue para os amigos!

domingo, 23 de novembro de 2008

Madrugada

Acordo na madrugada faminta. Foram diversos dias me alimentando sabe-se lá do que, e se ela quisesse se livrar de mim teria sido o momento, eu talvez tivesse partido se estivesse decidida como a imagem de decidida que ela me passava. Vejo que ela mentia. A gente sempre mente, ás vezes espera para ver se o outro insiste, como o outro também mente, às vezes insiste, às vezes não. Faz parte. Ela dorme na cama, mesmo dormindo deve arquitetar alguma coisa. A parte do corpo descoberta é linda, pudera me apaixonei.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

A arquiteta

Passo no seu escritório na hora marcada, ela de tailleur como pede o figurino, eu de jeans e camiseta sem a menor cara de cliente. Ouço pelo interfone sobre a mesa da secretária ela dizendo para deixar passar o próximo cliente, eu. A porta se abre, ela de cabelo preso na nuca, as mãos livres se soltam sobre o meu corpo num boa tarde demorado. Molho as calcinhas, e agradeço não ter um pinto nessa hora. Digo que vim para leva-la a passear, ela diz que já sabia, trocando as sandálias altas por um tênis baixo guardado no armário. Vamos pela rua apertada de tanta gente, é quase hora do rush, vamos a um café e peço um champanhe, sua bebida preferida. Ela diz que não, me pega pela mão e diz que vamos a outro lugar, tem outros planos. Eu ainda espero os planos se fazerem em mim. Pega o carro e vamos a um lugar no centro da cidade, um puteiro, ela diz que é para comemorarmos ali, esse é o lugar onde se fazem grandes comemorações. Na porta da casa, o leão de chácara é solícito, boa noite dona. Uma puta se aproxima, pergunta se queremos companhia. A arquiteta deixa a garota falar, pede drinques ao garçom, bebemos e conversamos como velhas amigas. Alguns homens no local olham para a mesa com interesse. Ela faz questão de não deixar claro se somos freguesas ou putas. A garota enfim diz o preço do programa, e diz que gosta de comer mulher, que ela mesma tem uma namorada, mas que esta nunca vem para não dar confusão no trabalho. A namorada não gosta que ela saia com outras mulheres, mas ela prefere. Que assim seja. Concordamos com o preço e não falamos mais nisso. Bebemos muito, as três, tem um quarto ali mesmo, subindo a escada, diz a garota. Esse é o primeiro programa da sua noite, ela cobra por hora, tanto faz ficar com a gente ou sair para o segundo turno. Tem uma cama grande, um chuveiro, um telefone. Ligamos para o bar, pedimos mais bebida. A garota se apressa em tirar a roupa, primeiro as nossas, digo que espero um pouco, ela despe a arquiteta, eu olho, ela passa as mãos pelos seios da arquiteta, demora a mão na cintura, escorre pelas coxas os dedos, a arquiteta me olha nos olhos durante toda a trajetória das mãos, sinto ciúmes e não movo, ela me convida a participar, sorri, digo não. Assisto. Fico excitada.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Vasta cidade



A cidade é vasta como o moral das pessoas. As oportunidades parecem cintilar em cada esquina e tudo é permitido. Surge a cada dia um esperto a convencer dez outros tolos de suas inexistentes habilidades. No que diz respeito às questões de governo, a certeza da impunidade faz multiplicar corruptos e falastrões confundindo a todos com discursos de palavras altruístas esquecidos logo após as eleições. Aprendemos, enfim, a usar as palavras de maneira leviana e cruel. Nessa grande cidade, todos se amam, inclusive àqueles que se conhecem na mesma noite, e ai de quem discordar desse pressuposto. Multiplicam-se os sociopatas, que circulam com altivez entre os mais variados grupos. Troca-se de roupa, como trocam-se os amigos e os produtos na geladeira. Vale mais um copo que uma amizade. Esvaziaram-se as palavras, perderam-se os gestos. Aprendemos e usamos diariamente, a antiga idéia de que a vida é um palco. O Rio nunca teve tantos palhaços e tanto público.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Dias nublados



Tenho fome, menstruo em breve, assunto de mulheres. Ainda mais quando a namorada também é uma mulher e os ciclos convergem para o mesmo período do mês. A fome quase sempre é desesperadora e não interessa muito qual seja a oferenda desde que comestível, a libido faz com que atravesse paredes em busca da amada no chuveiro, e o implacável mal humor ataca, por vezes transmudado em tristeza, que pode ser das grandes ou das pequenas. Assim somos nós, por vezes amáveis, por vezes insuportáveis. E nem me diga.


quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Como abrir uma porta



Primeiro, com a mão no formato de concha, aproxima-a devagar da maçaneta, como quem está prestes a tocar em telhado de zinco ardido de sol. Os pés um pouco afastados um do outro, um mais à frente, o outro mais atrás, mantendo uma distância confortável da porta, dessas que deixam o ar entrar e sair das narinas com facilidade. O braço que sustenta a mão no alto, que tanto pode ser o esquerdo como o direito dependendo das preferências, não está de todo esticado evitando forçar a articulação do cotovelo, encontra-se contraído. Forma-se um ângulo de aproximadamente cento e cinquenta graus entre o antebraço e o braço, numa altura desde o solo um pouco menor que a da mão que quase toca o gélido metal da maçaneta. A mente reluta por um instante, entre escancarar ou não a porta. O corpo se inclina de modo imperceptível, aproxima os dedos que enrijecem na certeza do toque da maçaneta, a mão se acanha na presença da haste metálica e aprisiona-a com os dedos. Apenas o polegar solitário se estende preguiçoso ao longo. Uma simples virada de punho e ouvimos o clique. Um suspiro mudo responde à réstia de sol que cruza a fresta, uma fresta maior, bem maior, espia sobre a cama o corpo em cochilo pós-almoço.

domingo, 19 de outubro de 2008

Não vá morder as Márcias


D´aprés OsMarcos



Abri os olhos e vi uma faixa negra em movimento na estrada, escuridão provocada por três lâmpadas queimadas. Havia postes? Nem sei. Acordei a tempo de perceber que dormira no guidão da bicicleta. Por pouco não acordei debaixo do caminhão de lixo. Chegava da cidade grande, de um apartamento na cidade grande. No apartamento tinha um cachorro, o Brutus. "Não vai morder as márcias, Brutus", disse Nanda. Nada deu certo, nem a inteligência, nem a burrice, nem a cama. Uma cama gicantesca. King size. Duas existências distantes. Duas distâncias.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Uma idéia simples



Uma idéia simples, silenciosa e influenciadora: nos dias 25 e 26 de outubro próximos, todos os eleitores do Gabeira para prefeito no Rio de Janeiro, vestirão uma peça de roupa verde para silenciosamente mostrar a nossa preferência política e influenciar os indecisos.

Vamos criar uma Onda Verde!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Em algum lugar do passado

A: buenas, cá estamos!
B: ei, enfim... demorou!
A: é que eu não sei usar direito essas modernidades.
B: mas não tem segredos aqui professora... de balé... rs
A: balé só para os íntimos :-). E você, não tinha a tal festa?
B: ela cancelou.
A: alguma idéia de onde dançar balé? tem gente indo pro Talebe, e outros pra ouvir samba da mariela... e também tem o rio todo...
B: onde é o samba da Manoela, esse não conheço ainda.
A: o da Mariela é coisa de Janete, tudo pode mudar o tempo todo....
B: então, podemos dançar sobre as montanhas do Rio, tem muitas.
A: eu não escalo...
B: ah, eu ganhei uma escalada da minha amiga portuguesa, ainda tenho q agendar.
A: agendar a amiga?ui!
B: não, a escalada, né... engraçadinha
A: buenas, a que horas a senhorita termina os afazeres hoje?
B: acho q até às 18h, tou liberada.
A: tenho análise as cinco e depois, free woman.
B: sim, 17h30, com certeza.
A: odeio com certeza.
B: rsrsr... bom
B: bem, eu gostaria de conferir esse samba da manuela, se for rolar
B: ou então, Talebe.
B: ou um plano c.
B: e se víssêmos um filme antes?
A: tá compulsiva, hein?rsrs
B: preciso ver, acho que pode ser útil para me dar idéias para o meu projeto...
A: o tito tb vai... o de cabelo amarrado, no Talebe.
B: nossa, ele é um amigo seu que gostei!e Pablo também gostou.
A: todo mundo gosta do Tito, impossível não gostar... feito tostines.
A: lembro do Pablo, tava meio nervoso no lançamento do foguete... rsrsrrs.
B: sim, nervoso com suas amigas lindas.
A: ai, ui, ai,... diz pra ele aprender a se comportar.. eu também fico nervosa com meninas lindas... rsrsrrs



domingo, 28 de setembro de 2008

Você me dá febre


A mão dela toca a minha testa suada. Embora a febre nos distancie em pensamentos, o corpo físico rememoria seu toque arrepiando meus pêlos. Com o olhar esgazeado arquiteto recompor-lhe o rosto embaçado pelas altas temperaturas. Eu a chamo pelo apelido de infância. A sua silhueta imita uma menina. Aos dez anos brincávamos de sombras há duas décadas atrás, lhe presenteava a minha com muita gentileza. Por um instante a fito atônita, me ama. No instante seguinte adormeço.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Acamada

O corpo fala, diz não. Insisto na loucura. A amiga arquiteta do meu lado, a sua mão na minha, a minha pélvis dolorida da noite anterior. Ela voltava como quem nunca se foi. Queria perguntar tanta coisa e no fundo saber de coisa nenhuma. Que ela tivesse partido num carro apertado de tantas mulheres pouco importava, nem deus é fiel. A quentura dessa mão na minha sobe a minha temperatura, arde a minha garganta, eu tento falar e não consigo. Estou num sonho nessa casa azul, com uma janela expondo o verde da mata e a sua mão na minha? Pouco importa se é sonho ou real, é bom. Ela por vezes me sorri quando abro os olhos. O meu corpo excitado responde. O ar arranha a garganta na direção dos pulmões. A contração do desejo é real e dolorida.


domingo, 7 de setembro de 2008

O corpo



Ensandecida ia pela rua, boca fechada discursava o corpo, balançava na avenida em movimentos incertos, em requebros que não se esperariam de um corpo assim no meio do povo, transeuntes feitos de contas, de trabalho, de tanta coisa, que não reconhecem o discurso dos lábios de espanto, mudos de espanto, da vigília doída de braços e pernas na busca eterna por instantes de descuido. Ela vinha, passos largos cruza a faixa de pedestres como se já não fosse um pedestre. Transmudada que estava pelo roteiro escrito em seu corpo com a pena de língua molhada, agora saliva seca colada em seus poros exalando um cheiro rude, de gente. Ela era um filme vivo, na tela das ruas, incompreendida pelos de poucos vícios, pelos incultos na magia da vida. Andava só e iluminada num domingo de sol na avenida escaldante.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Dos males da espera



Parecia que atrás de mim tinha alguém lendo um livro, ao meu lado filas imensas de cadeiras tanto para a direita quanto para a esquerda, à frente apenas duas filas de cadeiras plásticas azuis desconfortáveis, para trás eu não podia saber nem olhar já que tinha alguém bem ali, talvez sentado um pouco a minha direita, talvez de olho na minha nuca, ou quem sabe na cadeira à esquerda da cadeira atrás da minha. Pelo pouco que lembrava de há duas horas e meia atrás, no exato momento em que entrei na sala e escolhi entre as cadeiras vazias em qual me sentar, uma que não parecesse muito no canto, nem muito no centro, me parece que havia como umas vinte fileiras ainda atrás de mim. Mas não seria de bom tom olhar já dizia minha mãe, isso podia bem atacar os nervos caso o sujeito, no exato momento em que eu virasse o meu pescoço num ângulo de mais de noventa graus em sua direção, não estivesse lendo o livro e sim me encarando pelo simples fato de que eu não conseguia sossegar nessa cadeira, tanto pelo desconforto quanto pelas horas de espera. A minha perna direita, desde que me conheço por gente, tem essa mania estranha de ficar balançando ritmadamente e imagino que um desavisado, que por ventura ficasse observando esse frenético repetir de movimentos também pudesse ficar atacado dos nervos, e seríamos então, já duas pessoas com os nervos à flor da pele numa sala com não sei quantas cadeiras ocupadas. Uma pequena multidão ansiosa e com os nervos alterados. Nos dias de hoje, nos dias de ontem também embora se prefira o saudosismo lírico do passado, é sempre perigoso um grupo de pessoas juntas, numa situação desconfortável e entediante. Não trouxera um livro comigo e me restava senão contar o número de balanços da perna para passar o tempo, o que aumentava a velocidade do balanço até sentir uma dor insuportável na coxa que sustentava a perna suspensa, aí parava por alguns instantes, anotava o número de balançadas atrás do papel com o meu número de atendimento e descansava alguns minutos. Trezentos e vinte e quatro era o meu número. Neste intervalo lembrava da pessoa atrás de mim, que tinha consigo um livro e mesmo assim se ocupava em observar meus poucos cabelos brancos na nuca aquela altura da vida, eu era jovem ainda, mas eles apareceram cedo e não me glorificava nem um pouco saber que o sujeito os mirava, talvez até contasse o número de fios de cabelos brancos, entediado que poderia estar da leitura do seu livro. Trocava as pernas de posição, agora a que antes estivera por baixo por cima, e o balançar passava da direita para a esquerda ou vice versa. Se ao menos tivesse trazido comigo as algemas que minha mãe costuma usar em casa quando alguém não se comporta, poderia virar abruptamente e pegá-lo de surpresa, depois era só alegar um ataque dos nervos, tão comuns nos dias de hoje, embora nos dias de hoje deveria também contar com a possibilidade de que o sujeito embora lesse um livro, poderia ter consigo uma arma de fogo e aí o azar seria todo meu, se num ataque de nervos seus sobrassem miolos meus pela sala.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Cafezal



baseado nas peripécias de G.

As saias longas e revoltas, coloridas, o sussurrar dos tecidos nos ouvidos destoa entre os sons, agora distantes, das folhas miúdas das copas das árvores a farfalhar ao vento. São os braços ao alto que encurtam as saias antes cobrindo os joelhos, são os joelhos no meio das pernas e um odor novo misturado ao dos grãos de café verde, recém colhidos, aprisionados pelos dedos, despejados nos cestos e algibeiras. Ela perambula entre os cestos, rodopia com as saias rodadas. O ritmo da colheita se intensifica com o passar das horas, com o sol que cresce redondo no céu. A testa goteja e, por entre as pernas, escorre um fio quente de suor. Ela espalha com o pé desnudo a terra seca, faz castelos de areia no ar, corre circundando saias e pernas, e do alto dos seus oito anos entontece com esse cheiro ainda desconhecido de xoxota que paira no ar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Vontade



Num impulso levanto do último assento do banco do ônibus exatamente ao mesmo tempo em que ela se levanta. Eu iria para o trabalho a essa hora. Que se foda o trabalho. Depois posso dizer que tive umas cólicas horríveis, ou então que comi um acarajé estragado na esquina. Os anéis cintilam com a luz do sol forte incidindo sobre os dedos longuíssimos e delicados, verão quarenta graus. Eu a três passos do seu corpo, quase sinto o perfume. Ela por detrás de seus óculos de sol alheia ao mundo, às buzinas, aos carros, aos trezentos transeuntes que se acotovelam pelas ruas, é ali que eu quero entrar também, quero sentar e tomar uma xícara de café, na sua vida, e só.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Pra não dizer que não falei de flores



Ela dome, dorme muito. Eu finjo que escrevo para um blog. Coisa de adolescente que fica em casa vendo a Angelina Jolie no Tomb Rider, e depois bate uma punheta. Lá fora tem o sol, o dia e a praia. Aqui dentro tem uma ressaca de anteontem, das piores. É a última vez que misturo bebidas. É a última vez que digo que misturo bebidas. Li na internet sobre um cara que ficou milionário, achou uma jazida de minério de ferro, um dia ele era pobre, agora milionário. Gasta zero vírgula muitos zeros dois por cento do que ganha em projetos filantrópicos e vira notícia, não sei se por causa das onze casas de milhões cada uma que tem espalhadas pelo mundo, ou se por causa desse projetinho que a gente sabe nunca vai resolver nada. A nova lógica da sociedade, não importa que as grandes companhias ganhem bilhões com trabalho escravo e/ou destruindo/poluindo a natureza, desde que elas gastem uma porcentagem ínfima dessa grana com propaganda na televisão sobre pseudoprojetos ambientais/sociais que, de novo, a gente sabe que não vai resolver nada. Viva os publicitários que também levam o deles em troca de mulher pelada em propaganda de cerveja. De iogurtes também como me contou uma amiga: uma senhora pobre comprava um tal iogurte porque ela tinha prisão de ventre, e a televisão dizia que o tal produto resolvia prisão de ventre! Cadê o governo numa hora dessas, cadê os meus impostos que vão e somem nessa vala sem fundo de corrupção. Cadê a educação gratuita e de nível razoável?! Nem me incomodo de pagar impostos, mas viver a lá americano e pagar imposto europeu já é um exagero. Mais um exemplo do mesmo: os publicitários enchem o bolso com os comercias, o povo semi-analfabeto assiste trinta propagandas por dia dizendo beba que é bom, beba que você vai ter mulheres lindas (afinal as propagandas são feitas por/para eles), depois vem o governo e diz que a você vai pagar mil reais de multa por estar dirigindo após beber um copo de chope, o governo também ganha, os policiais sorriem com o inflacionamento da propina, enquanto em Brasília eles nem se incomodam tirando da cartola as suas carteiras de funcionários de altos cargos do governo abrindo e fechando portas à revelia. E a gente vai levando, e a gente vai bebendo, que também sem uma cachaça, ninguém segura esse rojão!

sábado, 2 de agosto de 2008

Fim de mês


Na sexta-feira à noite entrei no cinema com a carteirinha de estudante emprestada de uma amiga, a minha cara ela, eu a cara dela, ou quase isso. Assisti Nome Próprio, a Leandra Leal está maravilhosa como sempre, salva tudo. Na saída encontrei ao acaso com um casal de amigos super simpáticos que me pagou uns quatro chopes. Rio de Janeiro, ir à padaria num domingo pela manhã comprar pão pode terminar à noite num boteco de esquina, isso depois de uma tarde torrando miolos nas areias de Copacabana, ao menos a gente se livra da neura da solidão. No bar ainda conheci a Manoela, ela veio e disse que o meu sorriso era lindo. Bastou. Gastei minhas últimas sessenta pratas no banco numa garrafa de uísque. Valeu. Terminamos as duas em casa dançando agarradinhas “Dois pra lá, dois pra cá”. Na semana que vem vou ter que descolar comida na casa de alguém. O pagamento do freela só sai na próxima sexta.

ps.:o filme "A ostra e o vento" com a Leandra Leal novinha é muito bom!

segunda-feira, 21 de julho de 2008

O ovo roubado

Há cento e cinqüenta milhões de quilômetros está o sol, depois Mercúrio e Vênus, logo em seguida a atmosfera, atravesso nuvens esparsas, desço avidamente de encontro à floresta, às copas verdes das árvores, pinheiros americanos, a cancela e o homem da cancela, a segunda cancela e o homem da segunda cancela, uma casa geminada num condomínio fechado, um dia de sol depois de uma noite de frio, o ar da montanha, a mão dela na minha, a minha mão na boca da ovelha, uma estrada de pedras, um lago, um pato, uma pata, um ovo, outro ovo querendo nadar no lago. Dois ovos embrulhados num cachecol.Ei, você pegou o ovo que estava aqui?Não, eu guardei lá! O caminho de pedras, a segunda cancela, a porta de casa, a frigideira, os melhores ovos mexidos do ano.

terça-feira, 15 de julho de 2008

A menina que levitava





A primeira vez que a sensação ameaçou florescer ela tinha ainda quinze anos, foi em meio às árvores do Jardim Botânico, enquanto andava na grama verde segura pela mão por um amor agora distante. Não apenas seu corpo finalizava detalhes, acentuando os traços do nariz e da testa, os seios delineavam derradeiros contornos, as mãos se formatavam nas futuras mãos de Luíza, era um protótipo último do que seria Luíza. O corpo se preparava para a noite de estréia, também a alma guardava dentro dela um espaço nebuloso do lugar do porvir, o nebuloso transmudando em constelações, em buracos negros. Pequenas premonições fremiam o corpo com uma certa regularidade, anunciavam o inusitado. De algum modo ela sabia que era diferente dos outros, mesmo porque eram todos assim tão diferentes entre si: sua mãe no mundo das pílulas coloridas para dormir, para acordar, para viver; seu pai às voltas com o mundo dos sonhos alegrando a casa, seus dois irmãos, gêmeos na disputa dos mesmos objetos, dos mesmos afetos. Ela crescendo e observando, observando e crescendo.

Demorou ainda alguns anos para que o esperado ocorresse, teve tempo de terminar o segundo grau e entrar na faculdade como era o sonho da mãe, cursava letras.

Agora, faz anos desde a primeira vez. Foi à noite na penumbra de um quarto numa cama emprestada. Uma quarta-feira chuvosa, dessas chuvas miúdas que prometem lembranças e dias e mais dias nublados. Entre sussurros Teresa pediu, abre as pernas neste instante ou morro de amores. Foi assim que Luiza prescindiu de dúvidas e pudores, pôs os pés para o alto e disse em bom tom como uma atriz de mil luzes, me chupa com vontade que de meias vontades estou farta. Foi assim que Teresa fechou os olhos e, pela primeira vez, sentiu entre pêlos o gosto salgado de uma moça. Foi assim que, pela primeira vez, Luiza sentiu o colchão a fugir do corpo, uma camada de ar sustentando-o teso, excitado, levitava a um palmo da cama a caminho do gozo.

domingo, 13 de julho de 2008

Mulheres




Eu não tenho um trabalho decente.
Eu não tenho um dia de sol.
Eu não tenho comida na geladeira.
Eu não tenho televisão a cabo.
Eu não tenho uma namorada.
Eu não tenho forças.
Eu tenho TPM.











sexta-feira, 4 de julho de 2008

História


trecho do livro Histórias de Cronópios e de Famas, Julio Cortázar


Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.

domingo, 22 de junho de 2008

Vida moderna




Deu três pulinhos e gozou. Deu quatro beijos e se despediu. Deu sete passos e saiu pela porta. Desceu treze andares e saiu do prédio. Dei meio suspiro e dormi.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Casamento


desenho:http://despacha-te.blogspot.com/

O som da banda era estupidamente alto, ela teve que chegar bem perto do ouvido para ser ouvida, o ombro praticamente roçou o seio direito, talvez por acaso. Sorriu e dirigiu o rosto na direção do outro rosto, a mão na cintura puxou-a com firmeza para junto de si, os lábios se moveram ao pé do ouvido num falar inaudível, um sorriso enfeitou o rosto. Por um instante, eu que admirava recostada no balcão, fiquei esperando pelo beijo, mas as duas usavam saia naquela festa de casamento, com aia e vestido branco démodé.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Um conto na Moviola


Meu mais recente conto, 4x4, acabou de ser publicado na Revista Moviola:

Gotejava sobre o ar condicionado do lado de fora da janela, a cortina de um verde puído, Ana limpava as unhas esparramada entre travesseiros sobre a cama de solteiro. Chovia há seis horas, fazia quarenta graus dentro do quarto e no rádio tocava “o meu destino é ser star…”. Se tivesse dinheiro compraria um jipe...

Continua no site da Revista, clique aqui.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Cachecol Verde




Deu duas voltas no cachecol verde em torno do pescoço para pensar melhor, mesmo sendo inverno o ar condicionado da sala estava ligado e os menos prevenidos estavam com as faces marcadas pelo frio. Quase se ouvia o tilintar dos dentes. “Atualmente existem equipamentos capazes de produzir imagens de 16 milhões de cores. Nossa percepção, no entanto, não registra todos estes tons... ", diante dessa afirmação ela era capaz de registrar bem mais do que cores ao lembrar do sábado à tarde; havia os cheiros, as curvas dos corpos e o mais importante, a sensação da pele sob suas mãos. Precisava concentrar-se, de alguma maneira, voltou a questão: “... assim como sequer temos nomes para todas elas. No jornal a impressão colorida é sempre o resultado...”. O resultado não é exatamente o que se procura, exatamente porque um resultado supõe-se algo lógico, direto e objetivo, e as reações adversas, depois de uma boa tarde de sexo, podem diferir tanto quanto as dezesseis milhões de cores como, por exemplo, desconcentração em nível elevado nas próximas vinte e quatro horas. “...de uma base formada por pigmentos de cores primárias. As cores que determinam todas...”, parece um exagero esperar-se determinar todas as nuances fosse do que fosse, ai estas provas pretensiosas, “...na impressão das imagens coloridas são:” Agora era o veredicto final, relembrava palavras soltas no enunciado, cores, todas as nuances, milhões, jornal, primárias, aí está a resposta, primário era entregar essa prova o quanto antes e voltar correndo para debaixo do edredom desnuda. Entreleçar seus braços e pernas no corpo dela, falar baixinho, puxar as mãos para junto dos seus mamilos, dizer que gosta dela assim, nua, com cheiro de domingo chuvoso.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Carolina



desenho:http://despacha-te.blogspot.com/

Depois doía entre as pernas, não que houvesse andado de bicicleta por horas como era costume nos finais de semana, cruzava a orla em direção ao parque metodicamente aos sábados. Neste não podia. Pedalava no sol quente, em sua caloi 10, equipada com boné, óculos escuros e fones de ouvido, nove quilômetros e meio. Via o mar, depois prédios seguidos de verde, mais a frente puro verde no aterro. O aeroporto era o limite, não gostava de aviões e seu barulho. Sentava de longe, perto do mar para com o som das ondas marolando abafar o som das turbinas, e boquiaberta via o alçar vôo das imensas aves metálicas. Há três meses a mesma rotina, nem sabia se gostava realmente da rotina, mas como rotina fosse devia ser repetida para que não se transformasse em outra coisa. Sob a areia conheceu Carolina, há duas semanas atrás, conversou e tomou água com bolinhas, pela mão foi levada para perto da pista de decolagem sem sentir medo. Duas semanas mais tarde, veio Carolina lhe visitar a cama na sexta-feira à noite. Tirou as suas calças, calcinha e brincou a noite toda sua xoxota com a língua, também não sentiu medo. E agora, agora doía entre as pernas.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Tempo



O movimento dos corpos pesados da direita para a esquerda e da esquerda para a direita fazia fremir a água morna da piscina, uma vez ou outra, do teto pendia uma gota do vapor condensado no teto tal era o contraste da temperatura dentro e fora do prédio. O céu estava azul e ensolarado, embora em nada isso servisse para espantar o frio. Nenhum vento no rosto ou transpassando os minúsculos orifícios do tecido vindo tocar a pele resguardada, apenas o gélido ar cruzando as narinas, percorrendo as vias respiratórias e deslizando morno pela boca afora.Vinte e três na piscina àquela hora da manhã, cedo ainda para preparar o almoço, já tarde para levar o filho à escola ou chegar no trabalho, embora destas mulheres apenas os netos ainda freqüentassem a escola e os tempos de trabalho oficial há muito se haviam encerrado. Buscavam no balançar da água um pouco de vida, um pequeno universo se reproduzia três vezes por semana, a agitação pré-escolar na terceira idade buscando não se sabe bem o quê, a risada muito alta de uma procurando insistentemente uma adolescência que se foi, o rosto sincero da outra que, na perda do marido, reencontrava o mundo, o exercício metódico de uma terceira acostumada a governar empresas e agora desvendando águas. Corpos exercitando equilíbrio, força e coordenação. Depois, uns poucos passos até em casa para algumas, dois ônibus pela frente para outras ou ainda um carro conduzido com cuidado pelas vielas da cidade. Elas retornam para apartamentos vazios, ou para a companhia de cães, gatos, livro, do marido, da música, de filhos e lembranças que colhem na memória em dias de chuva.

domingo, 27 de abril de 2008

No ônibus


Aqui do último banco do ônibus vejo bem as pernas, a saia apertada define o músculo da cocha, os cabelos longos anelados e, quando o acaso vira o seu rosto em direção à porta de entrada do ônibus, titubeio. Eu e minha heterossexualidade. Deve ter seus quarenta, quarenta e poucos anos, a pele bem cuidada, os dedos decorados de anéis. Senta altiva a tomar conta do mundo que gira em seu redor, a preocupar-se com o crescer das folhas nas árvores, com o marolar das ondas na beira da areia. Esse ônibus circula porque ela está dentro dele, o trocador ajuda a roleta a girar por sua causa, eu respiro tão e somente pela sua existência. A mulher de cabelos curtos, que mal respira em pé ao lado do seu banco, me causa inveja pela proximidade, pela vista dos seios.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Em viagem


obrigada pelo texto O. M.

"Não tenho paixões por aqui, ainda não e não espero muito. Mas tenho um caderninho onde faço muitos desenhos e onde às vezes outras pessoas escrevem. São personagens que escrevem no meu livro suas próprias palavras. Outro dia uma DJ me desenhou depois de eu a ter desenhado. Ontem uma chef de pizzaria que não era gay escreveu um poema e desenhou uma flor. Love is everywhere. Talvez não seja o caso de dizer Amo, mas sim Ama-se."

desenho: http://despacha-te.blogspot.com/

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Pornografia


"Pornografia é o erostismo dos outros"

Alain Robbe Grillet

domingo, 23 de março de 2008

Xoxota líquida






Eu caibo numa

quarta-feira, 19 de março de 2008

Feriado


Marcos entrou no quarto, num primeiro momento não compreendeu a mancha escura por debaixo da cama, o líquido pegajoso escorria perto do pé da cama e molhava a ponta da colcha, vinha lentamente em sua direção, talvez apenas na direção da porta. Joana dormia de boca aberta estirada na diagonal da cama king size sobre um colchonete velho, da boca descia pelo canto direito uma baba branca em direção ao travesseiro. Dormia de bruços com a camisola amarela, as pernas à mostra e o tecido amarfanhado perto da bunda. Logo na chegada fizeram uma trilha de vinte e dois quilômetros comemorando o início das férias no dia anterior, beberam uma garrafa e meia de vinho antes de dormir por volta das dez horas da noite, o fogo em algumas brasas na lareira ainda brilhava, saltitavam fagulhas sobre a placa de metal e iam parar sobre o tapete de estopa. A cabana ficava afastada da cidade de Murició noventa e oito quilômetros feitos em hora e meia num carro convencional por estrada de terra em bom estado, pista dupla recém passado o trator. Alugaram por um mês com direito à vista das montanhas pedregosas enfeitadas com gigantescos pinheiros, muitos metros afastados uns dos outros perto das raízes e se encontrando no alto das copas, no chão grimpas espinhosas cobriam a terra. Caminharam pela trilha encontrando no caminho fumaça distante saída da chaminé de outra cabana, na varanda balançava sobre uma cadeira de madeira um homem robusto que entrou na casa assim que eles intencionaram ir naquela direção. Caminhavam fazia duas horas sem uma garrafa de água e, apesar do frescor da temperatura já sentiam o suor escorrer por dentro da camisa. Insistiram na direção da cabana, pularam a cerca de pedras e enveredaram pelo campo limpo com algumas vacas no pasto, vez ou outra ouviam o mugido de um bezerro ao longe clamando pela mãe que respondia num tom choroso. Perto da casa marcas de botas de borracha...