segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Vasta cidade



A cidade é vasta como o moral das pessoas. As oportunidades parecem cintilar em cada esquina e tudo é permitido. Surge a cada dia um esperto a convencer dez outros tolos de suas inexistentes habilidades. No que diz respeito às questões de governo, a certeza da impunidade faz multiplicar corruptos e falastrões confundindo a todos com discursos de palavras altruístas esquecidos logo após as eleições. Aprendemos, enfim, a usar as palavras de maneira leviana e cruel. Nessa grande cidade, todos se amam, inclusive àqueles que se conhecem na mesma noite, e ai de quem discordar desse pressuposto. Multiplicam-se os sociopatas, que circulam com altivez entre os mais variados grupos. Troca-se de roupa, como trocam-se os amigos e os produtos na geladeira. Vale mais um copo que uma amizade. Esvaziaram-se as palavras, perderam-se os gestos. Aprendemos e usamos diariamente, a antiga idéia de que a vida é um palco. O Rio nunca teve tantos palhaços e tanto público.

7 comentários:

Adriano Queiroz disse...

A sociedade do espétaculo...

Abraços.

Flávia B. disse...

Panis et circencis versão tupiniquim-contemporânea.

E eu receio que haja (muitas) futuras reedições.

Beijos, moça.

Cecilia disse...

Tristemente.
E como se não bastasse, além de superficial e gélida, corrupta e suja, habitada por um lado por gente submetida às ordens do tráfico, sob condições animais, e por outro pela antipática falsa alegria da sociedade ipanemense e afins, ou barratijuquense (muuuuuuuuito mais adequada a este texto), melhor dizendo com sua cultura de luxo-lixo... como se não bastasse, os caretas que se travestem de autoridade: uma política de terceira categoria peemdebista, uma polícia truculenta, uma sociedade superconservadora (ou quem é que ainda acha que carioca é liberal? que a vida cultural carioca é agitada ou inovadora em alguma coisa? ainda estamos, em termos familiares, no nível da "sala de jantar")... mas ainda tem gente boa. Ainda tem o Parque da Tijuca. Ainda tem a Lapa. Ainda tem professores lutando de bom grado na Universidade pública para garantir a dignidade intelectual que nos falta.
A poesia é minoria... pois a altivez já se perdeu, mas não de todo. Esperançosa, eu? Diria que de visão felina. :)
beijos

elis disse...

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.

Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho,
a casca dourada e inútil das horas.

O Quintana sabia das coisas para além da cidade e das próprias pessoas.
:D

Aichego disse...

Isso também se passa `as vezes...

quando te vejo?

Cogumela =) disse...

Ai! acidez em que eu não quero acreditar.

fujo do desespero, inutilmente!

beijos!!!

-cogu-

Katrina disse...

Acho que amo cada pessoa que acabo me esbarrando pela cidade. Talvez o meu amor tenha sido banalizado ou eu ame incondicionalmente a cidade.