segunda-feira, 24 de julho de 2006

Gotas púrpuras


Saí para andar pela rua à noite tentando lembrar porquê eu não conseguia lembrar de nada. A minha casa estava morta e vazia, morava mesmo uma só pessoa nela que agora estava ausente, mas as ruas da cidade estavam todas piscando com as luzes das janelas dos altos apartamentos que se acendem e apagam com gente que vai dormir, beber água ou fazer xixi. Eu mesmo só caminhava um pouco sem rumo e mal iluminado, vez ou outra baixava o rosto evitando um farol mais alto nos olhos, saíra sem pressa e decidido a resgatar alguma coisa dessa memória fatigada pelo excesso de café e cigarros. A mão ensangüentada não saía da minha mente, um corte fundo de faca talvez, na parte interna da mão, o fio de sangue brotando desde o dedão e terminando perto do punho. Os detalhes eu lembrava, da cor viva do sangue, daquela cor mais forte depois de seco e escorrido no braço, não deu nojo, nem medo nem nada, pra falar a verdade pensei em aids e não chegando perto de mim era a conta, afinal era como se eu nem estivesse lá, mesmo porquê a certeza que eu tenho é a de não saber exatamente o que aconteceu, e se você não lembra é o que conta, eu não posso dizer que vivi coisas que não lembro, isso significa que elas não marcaram o suficiente, não foram importantes, e pra mim isso basta pra deixa-las no limbo com esse monte de lixo que tenho guardado em partes inúteis do cérebro, mas agora tinha uma dessas inutilidades da qual eu precisava, tinha que vasculhar esse lixo de informações acumuladas durante quarenta e seis anos de vida e pegar somente uma, a de nove de julho de mil novecentos e noventa e sete, aí está um truque sujo, a data eu sei porquê no dia seguinte era meu aniversário, belo presente de aniversário essa porra de mão toda ensangüentada.

Um comentário:

Renata koury disse...

Uau!Pegou pesado!
Nada mau para quem não recomenda dramas... rsrs.
Memórias vicerais são sobrevivência.Fazem do ser comum um imortal,palavras que definem quem escreve,no caso, se o faz bem.