segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Labirinto



Ficou impressionada com o construir cercas, ao redor da casa, dos jardins, no descampado afora, por vezes deixava as ovelhas do lado de dentro, por vezes do lado de fora. Falsas compridas cercas cercando ar, labirínticas, destruia antigas ou novas, aleatoriamente, refazia. Encerravam memória. No caminho encontrava, passados meses, o sorriso de uma amiga antiga num divisor de trilhas, escavando fundo vinha a infância, o pingue pongue, a bicicleta, o agarrar-se às ovelhas, desenterrava e encarava medos, do escuro, do filme de terror na madrugada. Seguia dias a fio uma ovelha gorducha de lã, sentindo o cheiro da infância, fechava os olhos e guiava-se por uma mão na cerca e o cheiro forte de bicho, sentava escorada na madeira enquanto a ovelha pastava. De olhos bem fechados feria o dorso da mão quando do encontro da cerca de concreto, do cimento salpicado, que rasgava pequenos pedaços superficiais de pele. As cercas pontiagudas ficavam ao longe, via apertando os olhos na direção do horizonte, raramente passava por lá esquivando-se de lembranças mais cortantes, outras vezes remexia-as e num prazer masoquista tentava compreendê-las.

2 comentários:

Thaís disse...

Fui transportada pra dentro das palavras, quase senti o macio quente das ovelhas.
Lindo!
Bjo

Ah outra coisa, será que encontro seu livro por aqui?
Bjo

juliana coelho disse...

Uh, não sei o que dizer. Gostei desse. Quero ir à praia, vamos à praia?