quarta-feira, 5 de março de 2008

Insônia

desenho: http://despacha-te.blogspot.com/

Sentou em frente à janela com o copo na mão, debruçou-se no peitoril a bisbilhotar vizinhos na noite insone. Álcool forte balançava pedras de gelo entre seus dedos. A noite nunca era escura quando havia lua cheia. Do outro lado da rua janelas abertas nesse calor indizível, as persianas balançavam vagarosamente ao vento. Lembrou do filme Não Amarás, sim não amará mais por algum tempo. Descansa o copo sobre o porta-copos, presente de casamento com desenhos de dragões chineses fosforescentes, partiriam mais cedo ou mais tarde. Ela dorme a essa hora da noite do outro lado da ponte, o sono pesado e barulhento. A noite fica enevoada da fumaça que sobe pelo seu rosto saída de sua boca, segue adiante pelo céu formando novas nuvens, novas formas, como se em alguma delas estivesse inscrito o seu futuro, olha para o horizonte branco deformado procurando. Mexe a pedra de gêlo no copo de gin tônica, uma bebida antiquada ela se dizia, era preciso adaptar-se ao novo lhe diziam. Gosta do gin que a deixa com os pensamentos altos, com os sentimentos aflorados, com os dias de festa passados em outro lugar em outros tempos. Sim, gin é dia de festa. Na janela do apartamento em frente toca uma música orquestrando a madrugada.

2 comentários:

Analuka disse...

Lindo texto, Naomi!
Sim, viagens para dentro e fora de si mesma são sempre fecundas, necessárias, pois só perscrutando labirintos, redescobrimos nossas próprias potências e pontes: em noites de lua cheia e solidão, também cintila algo no fundo sem-fundo de si, e acontecem movimentos suaves e sutis, benfazejos... Beijinhos pintados.

Anônimo disse...

"para ver tus entrañas voraces.
Cuántas palabras que quieren cantar"

Elis deixou versos aqui.